As costas, já arqueadas, apesar da pouca idade, pareciam agora tender ao chão. Levantou o rosto, evidenciando uma série de pequenas cicatrizes de infância. De repente, viu uma coisa que há muito já sabia. Todos naquele metrô se encontravam mortos. Não mortos do tipo que se faz funeral e se enterra. Um tipo definitivamente mais desagradável, que perambula por aí, sem nenhum sinal de vida nos olhos. O tipo que tem seu momento mais vivaz quando olha indiscretamente para a bunda de uma anônima, logo antes de afundar de novo na morte.

Aquelas pessoas perambulavam pela cidade com roupas falsas, corpos falsos, idéias falsas. Existe, nelas, algo muito parecido com mendigos. Como os mendigos pedem dinheiro, eles constantemente te pedem insistentemente um pouco da sua vida. E, se você assim deixar, eles a sugam toda, diluindo ela tanto que não sobra nada pra ninguém. E você vira também um deles.

Acho que aquela corcunda fazia jus à sua idade, afinal.

Um banho,
A água que cai
Sobre a pele
Desenha a forma do eterno.

Sorrio pro espelho,
A face do sucesso
Esculpida em mármore.

O fino corte
Da camisa,
Cuja cor combina
Perfeitamente
Com o azul da calça.

Um terno, uma gravata,
Um sorriso que sustente o esquema.

Quase um pecado
O desperdício humano.
Justo era manter-se em casa
Admirando-se no espelho.

Mas não, me dividir com a massa,
Disforme massa,
Por uns trocados.

Como um Dorian Gray
Olho pra rua,
Vejo ferramentas
De terrível aspecto.

Mas eu não,
Estou impecável,
Sai de casa o Eu-Deus.

— autoral

Virei de lado numa das grandes revelações de 1 da madrugada. Não que eu tivesse sacado algo que eu pudesse explicar, parece mais com algo que tivesse finalmente entrado em seu lugar. Ou saído de vez. 

Estava evitando escrever: tinha preguiça de escrever à mão e o computador tinha distrações demais. Queria consertar a máquina de escrever. Mas, à beira da loucura, pensei “por que não botar em palavras o que talvez seja meu último lapso de sanidade?”

Fui para a cozinha beber água, exausto por mais um dia sem sono. A cidade toda podia dormir, só eu não. Esse pensamento foi imediatamente cortado quando vi um menino. Uns dez anos. Tomei um susto horrível, mas  me aproximei.

“Oi”, ele disse de costas. Cumprimentei de volta de uma certa distância. Perguntei quem ele era. “Sua sanidade”, respondeu com um leve risinho. Era isso, eu tinha enlouquecido. “Mas você é… pequeno…”. “Você não faz muita questão de me fazer crescer”. Ótimo, eu já estava levando patada da minha própria imaginação. Disse que ia tentar dormir. Me despedi. Deitei e dormi imediatamente.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.


there’s a bluebird in my heart that

wants to get out

but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.

then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do

you?

Um grande presente. A sua própria mortalidade se desenrolando em frente aos seus olhos. “Generally fatal in adulthood”. Palavras frias demais, com o toque de crueldade que é, em quanto isso, ser parabenizado por mais um ano de vida. Vinte agora. Vinte anos de absolutamente nenhuma conquista significativa. E quantos pela frente?

E acontece logo comigo? Eu que sempre tive esse louco e, até agora, despropositado medo de morrer. Todo mundo tem que morrer, é claro. E é bem provável que, em duas ou três semanas, ninguém mais chore minha morte. Afinal, todo mundo é substituível. Mas e os meus grandes projetos?Jogo tudo pra cima e aproveito brevemente? Esses realmente devem ser os problemas a ocupar a cabeça de um recém-adulto?

Eu, sempre tão seguro quanto à vida, fui inundado de dúvidas por duas páginas de descrição de remédio. E então, pra que me esforcei esse tempo todo?

Escrevi um poema na areia
Sobre gente, em massa
E a histeria coletiva
A bobagem da pretensa vida social…

Uma onda acabou o poema.

Sorri.

— Areia - Autoral

A indisposição parece um imperativo se não há o por que ou por quem sair. Ficar grudado numa cama ou num sofá, tomando doses cavalares de uma bebida qualquer não é mais que natural. A verdade é que, realmente, “é impossível ser feliz sozinho”.

Não sozinho em termos de relacionamento amoroso. Digo sozinho no mundo, sem ninguém em quem contar. Um amigo, qualquer coisa do gênero.

O grande complicador é que os problemas são tão complexos quanto os envolvidos. Isso é uma verdade que pode ser generalizada com bastante precisão. E quem se interessa por quem não tem um pouco de complexidade? E quanto mais complexo, melhor.

O fato é que, pelo menos de modo pessoal, nunca soube bem como lidar com problemas. E num navio furado vou afundando em mim. 

O relógio corre
E eu aqui na minha sala
Seguindo o Tic-Tédio
— Haicai Cotidiano - Autoral

Tudo começou quando minha professora de matemática do primário falou para a turma:

-Não podemos comparar laranjas com melancias.

-Podemos sim, professora - eu disse.

Pela cara dela, ela não havia ficado muito feliz com a observação. Mas ninguém nunca fica.

-Claro que não podemos. Elas são diferentes, não faria sentido comparar.

-Exatamente! Quer dizer, se fossem iguais, pra que eu iria querer comparar. Era só dizer, “são iguais”. Poupa trabalho

-Vamos voltar ao que é importante…

-Mas professora, eu consigo comparar! Melancias são maiores, eu gosto mais de laranja, a melancia é ótima pro calor, porque tem muita água…

Quando eu me dei conta, lá estava eu, um farrapo de gente. Quarenta anos, desempregado, separado, infeliz e com uma puta prisão de ventre. O retrato da mediocridade. E, enquanto tentava cagar pela enésima vez, de repente apareceu apareceu aquela sombra de quem já havia ido a muito tempo.

-Pai, até morto você é inconveniente.

-Fica quieto e olha pra tudo o que você…- abriu um pequeno e sarcástico sorriso - … conquistou.

-Sério que você só voltou pra me encher com isso?

-Claro, você tinha potencial. O que aconteceu contigo pra virar isso?

-O mesmo que acontece com todo mundo inteligente o bastante pra ver direito, desisti. E por que você não cai fora, essa conversa não vai levar a nada…

-Você de novo falando como se fosse o maior gênio dessa porra desse mundo. Me escuta pelo menos uma vez, tenta ser razoável…

-E fazer o que, trabalhar que nem um corno pra morrer que nem um cão, como meu querido pai? Ou esqueço tudo que eu pensar e morro burro como minha mãe?

-E entra no eixo!

-SEU eixo, não é? Nem mesmo seu é, é do seu patrão, do patrão de todo mundo. Eu tô feliz aqui, obrigado.

-Só louco pra entender como isso é felicidade. Alcoólatra, pobre, solitário, com meia vida desperdiçada…

-Nem me fale, Realmente não quero que seja a metade. Quatro quintos tá bom. Se me der licença, tenho que me limpar.

E me limpei, mas ele não sumiu. Não que isso me incomodasse mesmo. Ele deve ter falado e reclamado até eu me deitar, mas eu já havia me desligado. Boa noite. Fui dormir.