As maiores
Histórias de amor
Já foram
Escritas.

Nos
Restam
As
Menores.

— Autoral - Histórias

Só consigo pensar num verso
Um só, sem um poema.

Um poema solitário
Como o poeta deve ser.

Guardo ele
enquanto arrumo outros versos
Ou jogo ele sozinho
Pela poética da solidão?

— Autoral - Poema do Poema

No coração do sábado a noite
Há uma vida própria da morte.

Risadas, cantos e gritos
Que se imaginam loucos
Ressoam pelos cantos.

Não sabem que a loucura
É silenciosa,
Melancólica,
Faminta
E só.

— autoral

Entre a freada súbita
E o seco estampido
É uma fração de segundos.

A fusão das latarias
Traz consigo uma chuva
De cacos de vidro
Que, ao melancólico
Brilho da tarde,
Se torna neve.

Nenhuma fatalidade,
Uma pena, mesmo.
Se perdeu a chance
De criar uma tensão,
Um efeito dramático
Lindo.

Só uma questão
De Estilo.

— Estilo - autoral

Um banho,
A água que cai
Sobre a pele
Desenha a forma do eterno.

Sorrio pro espelho,
A face do sucesso
Esculpida em mármore.

O fino corte
Da camisa,
Cuja cor combina
Perfeitamente
Com o azul da calça.

Um terno, uma gravata,
Um sorriso que sustente o esquema.

Quase um pecado
O desperdício humano.
Justo era manter-se em casa
Admirando-se no espelho.

Mas não, me dividir com a massa,
Disforme massa,
Por uns trocados.

Como um Dorian Gray
Olho pra rua,
Vejo ferramentas
De terrível aspecto.

Mas eu não,
Estou impecável,
Sai de casa o Eu-Deus.

— autoral

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.


there’s a bluebird in my heart that

wants to get out

but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.

then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do

you?

Escrevi um poema na areia
Sobre gente, em massa
E a histeria coletiva
A bobagem da pretensa vida social…

Uma onda acabou o poema.

Sorri.

— Areia - Autoral

A indisposição parece um imperativo se não há o por que ou por quem sair. Ficar grudado numa cama ou num sofá, tomando doses cavalares de uma bebida qualquer não é mais que natural. A verdade é que, realmente, “é impossível ser feliz sozinho”.

Não sozinho em termos de relacionamento amoroso. Digo sozinho no mundo, sem ninguém em quem contar. Um amigo, qualquer coisa do gênero.

O grande complicador é que os problemas são tão complexos quanto os envolvidos. Isso é uma verdade que pode ser generalizada com bastante precisão. E quem se interessa por quem não tem um pouco de complexidade? E quanto mais complexo, melhor.

O fato é que, pelo menos de modo pessoal, nunca soube bem como lidar com problemas. E num navio furado vou afundando em mim. 

O relógio corre
E eu aqui na minha sala
Seguindo o Tic-Tédio
— Haicai Cotidiano - Autoral